O dia nasceu frio, frio como um gelo, frio como o meu coração. Eu estava ainda me movendo na cama , tentando cobrir meu corpo com aquele fino cobertor... Nada parece deter o frio quando você pensa nele, isso também se aplica na vida. Se você pensa no quanto você está triste, no quanto você não presta, mesmo eu sabendo que você não presta mesmo, você continuará assim e continuará passando frio.
Eu sentei na janela, ela é baixa o suficiente para eu conseguir sentar lá e observar a névoa que se arrasta pela cidade. Fiquei pensando em quanto eu amo o frio, mesmo que isso traga uma certa dor inevitável, é gostoso.
Preciso de um café, isso, então me levantei , coloquei um camisetão e fui atrás de café, a casa estava vazia... Estranhei, aqueles dois sempre estão fingindo ser um casal lindo todos os domingos. Esse domingo eles não estavam lá. Estranho... Enfim, ignorei e fui atrás do meu café. Quando estava terminando de colocar o café na caneca, o meu telefone toca, atendo.. É minha mãe. Ela está com a voz tremendo, essa vaca não consegue falar direito nenhuma vez ? E então, quando ela recuperou a respiração, me disse com todas as letras.
- Seu pai... ele morreu, assassinado enquanto ia comprar pão.
Eu fiquei perplexa, como alguém pode ter uma morte tão sem graça ? Enquanto vai provar a pobreza de ir comprar pão ?? Como ele pode ser tão patético. Ela continuou
- Ele foi esfaqueado... E estava aqui no hospital tentando sobreviver, mas não conseguiu... nossa vida acabou minha filha
e então ela entrou em prantos, já eu... para manter minha máscara falei ' não acredito.... ' mas realmente não acreditava como ele não conseguiu se defender, gordo do jeito que era, tinha sangue para dar e vender. Sangue Humano, vida humana, tão descartável. Então desliguei o telefone.
Será que ele me deixou alguma coisa importante ? Ou talvez era tão pateticamente previsível que deixou uma pilha de filhos pelo mundo. E então, minha mae ligou novamente para eu me arrumar para o velório e enterro em seguida, o corpo estava muito destruído para esperar o dia seguinte.
Fui até o meu quarto, peguei meu vestido preto, meu preferido, ele me dava alegria. Coloquei óculos para manter os bons sentimentos da minha boa face e peguei meu guarda-chuva e sai atrás de um táxi. No velório não teve nada demais, eu estava com fome, comprei um refrigerante e fui ao banheiro comer. Olhei meu rosto, estava com uma espinha gigante, nossa, como eu odeio qualquer coisa manchando todo o trabalho que tenho de deixa-lo perfeito. Essas imperfeições só mostrariam como minha real face seria, demoniaca, cheia de cicatrizes e cheia de sangue. Entrei então em uma cabine, fiquei mijando e bebendo meu refrigerante, enquanto isso... eu escutei alguém entrar, chorando. Era minha avó , soluçando ao falar " Como vou viver sem meu filho ? "
E nessa hora, veio algo que eu desconheço, um aperto no meu coração, serão gases ? Analisei direito... Eu já tinha falado, que se eu tivesse um filho , uma parte minha, provavelmente teria sentimentos bons e assim, não queria ter . E imaginei o quanto deveria doer nela perder meu pai, tive pena. Pena não seria um bom sentimento certo ? Ufa...
Quando ela saiu e eu me recompus... e sai do banheiro.. Encaminhamos-nos para o cemitério.. um lugar muito bonito, muito verde, mas chovia muito, o céu estava muito nublado ainda e o cheiro da grama molhada era vivo em minhas narinas. Eu gostaria de poder tirar os sapatos, mas não era recomendado. Os pássaros estavam calados, como se soubessem que aquele era um momento de sofrimento para todas as pessoas, menos para mim. Acho que a natureza percebeu minha presença e mandou as piores condições climáticas para aquele momento. Era muita dor nos olhos da minha mãe , minha avó estava no chão. Eu ainda não tinha olhado para o meu pai desde que tinha me tornado uma adolescente, olhado de verdade, e não me deu vontade nenhuma de ter feito isso.
Quando o caixão começou a descer, eu tomei uma decisão, matar os sentimentos de todas as pessoas que passarem na minha frente, chega de ser indiferente, vou fazer uma diferença nesse mundo de merda, se elas não tivessem sentimentos não escutaria tantos gritos de dor agora, se elas não se importassem não estariam buscando em mim agora algum tipo de força. Essa é minha decisão. Hora de fazer diferença Holly. Hora de ser mais do que esses vermes que comerão a carne do meu pai ou as lágrimas da minha mãe.
Nesse mesmo instante, eu olhei para o horizonte e vi alguém.. Um rapaz, loiro, olhos azuis, corpo atraente, mas com os olhos manchados de lágrimas também, ele estava na frente de um anjo gigante de escultura, e então ele parecia aquele anjo, com asas. Difícil conseguir definir algo inexplicável.
Quando tentei enxergar melhor, minha mãe pegou na minha mão, como eu gostaria que ela não tivesse feito isso. E por fim, meu pai estava enterrado, pelo mundo nojento que vivemos ele morreu como um patético. Continuará isso em minha cabeça, mas a minha promessa está feita. O mundo será muito melhor de ninguém tiver bons sentimentos, só restarem pensamentos sobre si próprios.
Só estou um pouco confusa, o que aquele anjo fazia me observando em lágrimas ? Seria Deus me avisando de algo ou sinal de que Deus está chorando com minha decisão.
Acho que nunca saberei....
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2 comentários:
holly é pesada, fria e incrédula no carnal
como todo e qqr humano por dentro se deixassem aparecer as espinhas
holly se preocupa com a aparência fisica mah simplismente fingue que naum existe as cicatrizes de alma.. que realmente são muito mais dificeis de apagar... mah ainda acredito que ela irá perceber issu um dia
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